27.10.09

O Milagre Brasileiro: O Céu é Aqui?

Há cerca de 40 anos o Brasil sob a mão de ferro da ditadura militar vivenciava o que se convencionou chamar “Milagre Econômico”. Tempos cuja taxa de crescimento ultrapassava 10% ao ano e a seleção canarinho ganhava seu tricampeonato. Apesar de alguma melhora na vida do cidadão comum o que sabemos é que esta época é foi marcada pela não divisão do bolo, o bolo cresceu e poucos ficaram com ele. Aumentou a concentração de renda e a pobreza.


Hoje o Brasil vive um momento que chamei no título de “Milagre Brasileiro” após as galopantes inflações da década de 80 onde os ricos ficavam ricos sem produzir nada, pois ganhavam mais com o dinheiro no banco que aplicado em produção. E os pobres assalariados tinham que correr ao supermercado a fim de que seu dinheiro ainda valesse alguma coisa antes do dia amanhecer e não desse mais para comprar o que compraria na noite anterior, pois as maquininhas remarcadoras de preço funcionavam várias vezes ao dia. Agora o salário mínimo que ainda não atende o que rege a Carta Magna, equivale a mais de U$ 250! Repito, ainda não atende as necessidades previstas no texto constitucional, mas em pensar que políticos há alguns anos brigavam para aumentar o valor do salário mínimo a U$ 100 vê-se um progresso. Diante da crise mundial causada pelos créditos podres da economia norte-americana, o Brasil foi o menos afetado e o que mais rápido apresentou sinais de recuperação. Faz parte do principal grupo das decisões econômicas do cenário internacional o G-20. Está também no BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China). quem acredite que este grupo ditará a nova ordem econômica mundial. O Brasil também luta por uma vaga permanente no conselho de segurança da ONU. Noticiou recentemente as reservas de pré-sal e é o único país detentor de tecnologia e know-how para exploração de petróleo em águas profundas. O ouro negro! Para os críticos desta riqueza suja, o Brasil possui base energética limpa: hidrelétrica, etanol, solar, eólica e tem potencial para gerar energia pelo movimento das ondas marítimas nesta vasta extensão litorânea. No cenário político internacional percebe-se o novo posicionamento do Brasil nas vitoriosas candidaturas a sediar a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Em um curto espaço de tempo será o centro dos dois maiores eventos esportivos do mundo.


As melhoras também se apresentam na diminuição da taxa de analfabetismo, aumento da expectativa de vida, redução da taxa de mortalidade infantil, mais de 12 milhões de brasileiros deixaram a linha da pobreza entre 2006 e 2008, mais domicílios ligados a rede de esgoto, socialização da rede mundial com crescimento do número de brasileiros com acesso à internet, redução da desigualdade de renda e tantos outros indicadores sócio-econômicos. É claro que estamos longe de países ditos desenvolvidos, mas não se pode negar de forma alguma os passos dados até aqui, e as mudanças significativas devem estimular a continuar sonhando com um Brasil cada vez melhor.


E por que gastei estes três parágrafos para explicar o “Milagre Brasileiro”? Para nos incitar a refletir sobre a troca da esperança celeste pela esperança terrestre, que se apresenta na prática pastoral e teológica na atual conjuntura da igreja brasileira. Na década de 80 as mensagens eram predominantemente escatológicas nos templos assembleianos. A esperança era celeste a ponto de ignorar a responsabilidade aqui, como alguns crentes tessalônicos havia quem nem queria mais trabalhar. Outros chegavam ao extremo, quando meus pais me tiraram de um colégio para um outro de melhor qualidade de ensino e, portanto, cobravam a mensalidade mais cara. Neste mesmo período a mãe de um colega de classe disse para minha mãe: Esmeralda, eu que não gastarei dinheiro com colégio, Jesus já está voltando! Já nos idos de 80 para cá a mensagem tem sido: vamos construir nosso céu aqui! As pessoas tem gostado tanto disto que já querem trocar o céu por uma estadia permanente aqui. Se uma geração esqueceu a terra, a outra esqueceu o céu. Será que a próxima esquecerá Deus?


Esta nova conjuntura que se formará em alguns anos revelará se a religiosidade brasileira é uma busca sincera por Deus ou uma fuga de problemas ou uma busca de riquezas.


Escrevi tudo isso para perguntar: Qual teologia responderá a nova situação social e econômica de um novo Brasil? Estaremos prontos para a nova prática pastoral exigida pelo novo contexto? Ou deixaremos para refletir quando acontecer? Como igreja viveremos mais uma vez atrasados em relação às mudanças do novo tempo?


21.8.09

Exército de Voluntários ou Exército de Soldados?

O voluntariado e o serviço cristão


Dia 25 de agosto é o Dia Nacional do Voluntariado. Ser voluntário é doar seu tempo, trabalho e talento para causas de interesse social e comunitário e com isso melhorar a qualidade de vida da comunidade. A definição do serviço voluntário é nobre e conquistadora. A Lei do Voluntariado (9.608/98) define juridicamente como o trabalho sem remuneração e sem vínculo empregatício prestado a entidades sem fins lucrativos com objetivos cívicos, culturais, educacionais, científicos, recreativos ou de assistência social. Então é um ato de se doar, de servir ao próximo, de colocar ao dispor do interesse coletivo nossos recursos pessoais. Tudo isso é muito belo e nobre. E em termos práticos o cristão deve “servir sem esperar nenhuma retribuição, apenas por amor ao próximo” como lemos em A Revolução do Voluntariado, de Hybels.

No entanto, o voluntariado traz consigo a compreensão da liberdade volitiva do ser em tomar parte em ações contributivas para a comunidade. E quando se fala do serviço cristão no corpo de Cristo em termos voluntários construímos a idéia de que o trabalho cristão é opcional, cabendo responder as demandas da seara de acordo com a minha volição (vontade) e não em atendimento a necessidade ou submissão à vocação que recebemos do nosso Senhor.

A igreja desde que se trabalhou o conceito de voluntários tem perdido bastante da presença de cristãos dispostos a trabalhar. É como canta o grupo Logos “quem ontem era servo agora acha-se senhor”. Não pesando mais, neste novo conceito de trabalho nas igrejas, o entendimento de nossa responsabilidade e privilégio como escravo (doulos = servo, escravo) de Cristo. Assim participa-se das reuniões e cultos na igreja local, mas não se compromete com nenhum ministério na casa do Senhor.

O apóstolo Paulo sempre se viu como servo na causa de Cristo, nunca como voluntário. E, depois de Cristo, Paulo é o maior nome do cristianismo. Quem foi adquirido por preço de sangue não se pode dar ao luxo de querer dizer o que fará ou o que não fará, simplesmente se rende diante do grande amor de Deus que lhe resgatou e lhe fez nova criatura e diz: “Eis-me aqui Senhor, envia-me a mim”.

Que pensar das palavras de nosso próprio Senhor quando ao dirigir-se ao Pai falou: “seja feita a tua vontade”? O trabalho voluntário pode ser descontinuado em favor do interesse do voluntário. O serviço cristão jamais pode ser abandonado pelo senso de conforto do servo, pois este serve em obediência ao seu Senhor. Procurando não agradar a si, mas Aquele que o alistou para a boa obra – “Ninguém que milita se embaraça com negócios desta vida, a fim de agradar àquele que o alistou para a guerra” II Tm 2.4 Logo, somos participantes como pontua Erwin Lutzer, no livro de Pastor para Pastor, não de um exército de voluntários, mas um exército sob ordens.

William Hauser, coronel reformado, citado por Lutzer chama atenção que quando o serviço militar americano tornou-se facultativo quatro elementos para a “disposição para lutar” foram abalados. São eles:
  1. Aprender a submissão: pela realização repetida de tarefas desagradáveis;
  2. Vencer o medo: conhecer companheiros e confiar neles para incentivar combaterem lado a lado ao invés de fugirem do combate;
  3. Despertar a lealdade: a exigência do exército que os homens trabalhem, durmam e se alimentem juntos nutri o senso de responsabilidade pelo bem-estar mútuo;
  4. Desenvolver senso de orgulho: lembrando ao soldado que os outros dependem dele o que valoriza sua contribuição para a segurança e unidade.

Será que o conceito de voluntariado nos círculos eclesiásticos, em detrimento do conceito vocacional e de servo, tem sido um ingrediente em favor da insubmissão, medo, traição?
Os quatros elementos observados por Hauser foram fortemente reduzidos quando o serviço militar tornou voluntário. Tendo em vista que o interesse pessoal prevalece sobre o interesse da nação. De igual forma podemos dizer que quando nossos interesses pessoais prevalecem sobre o do Reino não viveremos o serviço cristão, mas o voluntariado o que difere de todo chamado e eleição apresentado nas Sagradas Escrituras. Toda disposição nossa é em obediência ao chamado de nosso General e não em escolher o que fazermos.

Que cristãos participem de campanhas de trabalho voluntário, assinem termo de adesão ao trabalho voluntário, contudo estejam movidos sobretudo pelo amor e serviço a Deus que se manifestará naturalmente numa ação positiva para com o próximo que além de expresssar saúde espiritual há estudos que demonstram que o doar-se em prestação ao próximo é fator de saúde e maior longevidade em relação aos que vivem ensimesmados.

¹ http://www.voluntariado.org.br/seja_voluntario/o_que_e.htm em 11/08/2009 às 13h17

27.6.09

Cooperação

Prossigamos com nossa conversa sobre cooperação ou operação conjunta iniciada na edição passada.

Tive a grata satisfação de receber um vídeo nestes dias de um texto que já algum tempo houvera lido. O vídeo retratava uma assembléia na carpintaria. O enredo tem mais semelhanças com a nossa fé do que simplesmente o ofício ali exercido, que é o mesmo do nosso Mestre. Cooperação e valorização do próximo são patentes na conclusão desta reunião da carpintaria.

Este binômio - cooperação e valorização - precede a própria criação do homem. No ato criativo de Deus percebemos isto quando Deus em seu relacionamento trino decide “façamos o homem” (cooperação dentro do santo mistério da Trindade na criação de Adão) “à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (valorização do outro, Adão, ainda que inferior, criatura, Deus eleva-o a sua imagem e semelhança).

Após a criação do homem tem-se o mandato cultural de Deus, esta é a comissão que nós pentecostais às vezes ignoramos. Deus ainda que autosuficiente e não precisando de ninguém convida o homem a cooperar com Ele no zelo e cuidado pela criação, colocando-o como mordomo (valorização) sobre toda a criação.

Deus criou também uma cooperadora para Adão, que recebeu o nome de Eva, cabia-lhe ser ajudadora no cumprimento da comissão cultural. Deus ensina neste episódio que não é bom estar só, a humanidade não foi criada para viver isolada e numa concepção individualista, mas um viver relacional e cooperativo. E que o segundo humano que Deus cria é do gênero feminino, ensinando-nos também com isto a complementaridade e diversidade nas relações de cooperação. Pois, desde princípio Deus mostrou a singularidade de cada ser humano. E esta singularidade fala-nos da valorização de Deus que nos fez diferentes e únicos. E por sermos diferentes e únicos somos tão importantes neste grande quebra-cabeça que delinea o grande Plano de Deus. E como peças deste plano divino precisamos uns dos outros, quer direta ou indiretamente. E precisamos de Jesus Cristo, pois como ele mesmo disse: “sem mim nada podeis fazer.” Ele, o Senhor, é o dono deste quebra-cabeça, deste plano, só ele sabe em profundidade a importância de cada ser. E apesar de poder cumpri-lo à parte da vontade e querer humanos, Ele decide contar conosco e nos faz cooperadores de Deus também na Grande Comissão.
Ora se Deus, que não precisa de nós, decide contar conosco naquilo que lhe é mais precioso. Como nós somos audaciosos em querer fazer sozinho o que Deus nos chama a fazer como corpo de Cristo. Como nós olhamos para o outro e o rejeitamos porque ele não se enquadra dentro de nossos padrões e o excluímos até do Céu, como se fôssemos Deus!!! Porque és pés não falo contigo és imundo. Porque és ouvido e não olhos não tenho parte contigo! Meu Deus que cristianismo estamos vivendo! Quando a palavra nos diz que até mesmo os membros que reputamos menos honrosos a esses honramos muito mais! Quando ela assim o diz o fala para praticarmos a vida como igreja corpo de Cristo. E Igreja corpo de Cristo não fala de uma denominação particular, fala de todos aqueles que se refugiam na cruz do Calvário! E esta cruz de nosso Senhor Jesus Cristo é poderosa para apagar qualquer placa denominacional. Caso contrário, somos seguidores de denominações e instituições humanas e não seguidores de Cristo.

Quando compreendemos isso valorizamos o nosso próximo, mesmo aqueles que não chegaram ao conhecimento da Verdade. E ainda mais, jamais nos comportamos como o Olho que mora em I Coríntios 12.21 que diz à mão “Não tenho necessidade de ti”, pois compreendemos a importância do próximo e o valorizamos, e entendemos que precisamos dele e ele de nós, trabalhamos em cooperação.

Que a reflexão deste texto nos faça cooperativos com o próximo independente que seja um publicano odiado, uma mulher desprezível no poço de Samaria, alguns leprosos excluídos, ou trazer para junto de si um zelote, ou escandalizar todo um sistema pela razão de você valorizar o próximo acima das coisas estendendo a sua mão em cooperação.

Convido você a assistir o vídeo da carpintaria, você verá que sempre o outro tem um valor, uma virtude para cooperar num objetivo maior. Se aqueles instrumentos chegaram a uma conclusão tão elevada eu e você criados a imagem e semelhança de Deus precisamos ir além.

20.6.09

Cooperação e Rivalidade

De passagem pela segunda cidade mais alemã do sul do Brasil, Nova Petropólis, parei na praça das flores. Bela praça florida e com o famoso labirinto verde. Mas naquela praça a algo nem sempre retratado, trata-se de um monumento ao cooperativismo. Pessoas diferentes dispondo de suas forças e competências de forma conjunta de tal forma a alcançarem melhores resultados, ou outras vezes até tornar possível alcançar algum resultado.

Observar aquele monumento mexeu com meu íntimo ao considerar nossa relação com Deus e nossa interrelação no Corpo de Cristo. Ao pensar em nosso modo não apenas de pensar eclesiologia (doutrina da igreja) como o modo de viver a nossa eclesiologia. Quando muitas vezes reduzimos o Reino de Deus ao reino da Assembléia de Deus, ou ainda, ao reino da minha congregação, e não poucas vezes, aos reinos personalistas do eu. Perdemos de vista o caráter da unidade e diversidade do corpo de Cristo. Ignoramos os ensinos bíblicos e arvoramos como únicos detentores da verdade nos degladiando entre nós mesmos. Assembléias contra Assembléias, pastores contra pastores. Irmãos que são desligados por terem participado de um culto em uma igreja co-irmã. Meu Deus!!! Onde estamos!? Já se disse que uma das características de seita é proclamar exclusividade de salvação, destronando tal graça do próprio Deus. Como podemos dizer que somos filhos de Deus, se tomamos emprestado o tridente do desenho medieval do demônio e lutamos contra aqueles que foram comprados pelo mesmo sangue? Seremos filhos de Deus ao plantarmos a semente do divisionismo, do rivalismo, do partidarismo? É o poder do sangue de Cristo que nos remiu menor que a força do poder político eclesiástico ou da placa ministerial pendurada na fachada do templo? De modo algum!

Qual a razão de disputas entre igrejas, ministérios, seminários, rádios, pastores, membros e congregados? Porque olhamos para asilos, escolas confessionais, casas de recuperação, associações e as criticamos e propomos criar outra em um novo modelo? Numa nova visão? Será que as motivações são corretas? Ou são elas fruto de nosso orgulho pessoal ou denominacional? Porque nunca pensamos em unir forças? Visto que há delas que aqui e acolá quase fecham as portas? Não seria mais sensato de nossa parte auxiliar do que montar uma nova estrutura? Até mesmo os comerciantes para buscarem sobreviver buscam se associar, como temos a rede de supermercados Super Rede que se uniram para sobreviver e crescer, e nós filhos de Deus cada vez mais nos separamos e rivalizamos uns com os outros. Como isso pode acontecer? Porque somos ensinados a viver um separatismo e não um cooperativismo. Porque falhamos em ministrar a belíssima metáfora paulina da igreja como sendo um corpo que sendo diferentes membros só são corpo no conjunto e jamais serão corpo se os membros estiverem separados. Quando falo falhamos em ministrar digo não a elaboração de um belo discurso em um culto doutrinário, falo inclusive do viver pastoral que comunica esta irmandade, respeito e estende as mãos para trabalhar conjuntamente ao invés de virar as costas e falar mal da igreja A ou B ou do pastor X ou de um projeto social delta.

Para alguns esta leitura é fácil. Mas para muitos esta leitura é por demais inconveniente, aliás viveram a história separatista, viveram momentos tensos que ainda estão cravados em sua memória, viveram perseguição ou ainda foram os próprios perseguidores. E afinal o que fazer? Olhar amorosamente para nossos irmãos lembrando que eu e você não merecemos, mas somos amados por Deus em Cristo Jesus. E fica como sugestão: Tente amar aqueles do rebanho de Deus sob seus cuidados que você julga mais difícil de fazê-lo e prossiga estendendo este amor aqueles que estão em Cristo embora não estejam no rol de membro da igreja que você pastoreia nem no rol de membros de outra igreja da mesma convenção que a sua. Afinal precisamos rever nosso pensar e nossa prática eclesiológica.

7.12.08

Colhendo o Fruto de Nossas Obras

O Brasil está de luto, foi esta a manchete de um jornal europeu. Enquanto o olhar do mundo focou-se na crise no mundo ilusório do mercado financeiro provocado pelos créditos podres, a crise ambiental não tirou férias, permanece presente e ameaçadora.

Enquanto bilhões foram ejetados na economia visando evitar um colapso, as ações dirigidas a mudanças no comportamento sócio-ambiental permanecem quase que simplesmente jogadas de marketing institucionais e empresariais.

Enquanto salva-se bancos e instituições financeiras, os catarinenses que perderam casas, amigos, familiares e o estoque de comida saqueiam supermercados para satisfazer a fome.

A realidade simultânea das duas tragédias mostra claramente, onde estão nossos valores. A vida humana e a criação não merecem tanto aporte de recursos quanto os bancos. É evidente que a quebradeira de bancos gerará um prejuízo social difícil de dimensionar. Mas a destruição de nossa casa, o planeta Terra, que o Senhor nos colocou para dele cuidar, é uma quebradeira aceita, segundo nossas ações, embora nosso discurso alardeie aos quatros cantos do mundo a preservação.

A tragédia no Sul é fruto de nossas ações e nossa desobediência ao Senhor, o qual nos encarregou do cuidado da Terra. Que cuidado a humanidade, eu e você, temos? Você pode pensar, ainda bem que é no sul, o nordeste brasileiro tem escapado desta fúria da natureza. Ledo engano! Uma pesquisa financiada pelo Fundo Global de Oportunidades, do Reino Unido, intitulada “Mudanças Climáticas, Migrações e Saúde: Cenário para o Nordeste Brasileiro, 2000-2050” é apocalíptica. Segundo a pesquisa, o aquecimento global gerará vulnerabilidades no Nordeste, sendo o Estado mais afetado o Ceará. Nós cearenses teremos uma redução em terras agricultáveis de quase 80%, o maior IGV – Índice Geral de Vulnerabilidade, que considera subíndices de saúde, desertificação, economia/demografia e custos – da região. O Nordeste em 60 anos deve ter sua temperatura média elevada em mais 4 graus Celsius. (http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=593204)

Que será isso tudo? É nada mais, nada menos que obra de nossas mãos. Temos colhido o que plantamos. Deus é justo, e ele julga com justiça. Que a misericórdia do Senhor acolha os nossos próximos de Santa Catarina. Muitos deles estão acolhidos em prédios de igrejas, que também sejam acolhidos pela igreja viva.

11.8.08

Sermõezinhos produzem cristãozinhos

Cristianismo não é possível sem proclamação. Calvino, grande reformador, já dizia que a marca da verdadeira igreja é reconhecida pela pregação fiel do Evangelho e pelos santos sacramentos (Ceia e Batismo). A proclamação é parte vital do cristianismo. Pregar as boas-novas foi o que Cristo fez em seu ministério terreno. A identificação da fé cristã com a pregação é tão forte que o próprio Cristo é a Palavra em sua revelação perfeita. Palavra profetizada pelos profetas do AT e Palavra anunciada pelos apóstolos.

Aprendemos nos evangelhos que Jesus ia de cidade em cidade anunciando, proclamando, pregando a palavra. As últimas palavras de Jesus aos seus discípulos após a sua ressurreição foram as da comissão para a proclamação. Vemos o quanto a pregação da Palavra é central na fé cristã.

A Igreja tem a função universal da proclamação. E entre os seus membros há alguns que tem um chamado especial para serem ministros da Palavra. Estes recebem uma unção especial de Deus para serem pregadores de sua santa Palavra.

Contudo, em nossos dias, os termos pregação e pregador têm sido evitados, visto que pregador soa agressivo ao homem moderno. Usa-se preletor, palestrante. Pois quem prega anuncia, transmite o que recebeu, fala do que foi revelado. Quem palestra não necessariamente prega, hipotetiza, ventila sua opinião, todas as opiniões e idéias são válidas e verdadeiras. Já o pregador não, o que prega é a Verdade que ele recebeu e que ele anuncia. Ele não indaga, ele não está em questionamento, ele não está construindo seu pensar. O pregador prega porque crer na não relatividade dos valores e da verdade. Prega porque crer em valores e verdade absoluta.

Em um livro de John Stott, lemos que os sermõezinhos de hoje tem gerado os cristãozinhos de hoje. De fato olhando o crescimento evangélico brasileiro vemos sem muito esforço que nossos púlpitos tem gerado cristãozinhos. Mas por quê? Quais seriam as razões que nos têm trazido conseqüências tão drásticas?

Não precisamos ir muito longe basta olharmos a nossa realidade. Se os que comem do altar muitas das vezes sobem despreparados que se dirá da maioria de nossos pregadores que são pessoas que labutam em outras atividades e o tempo que lhes resta para preparar o sermão é quase nenhum. O tempo de uma pregação de 40 minutos deve custar ao pregador um preparo de no mínimo 3 horas. Leitura, oração e pesquisa. Mas não raro acontece de o pregador subir ao púlpito com preparo indevido. E ainda culpar o Espírito Santo, ao distorcer as palavras de Jesus de que não deve se preocupar com o que deveriam falar, pois o Espírito Santo lhes daria palavras ao abrir da boca. Vale ressaltar que, Jesus não falava a respeito de pregação, o contexto desta ajuda divina é outro. O Senhor não premia o negligente e preguiçoso.

É oportuno nesta oportunidade lembrar aos pastores de tempo integral que assumem tanto o pastoreio como a administração da igreja que é razoável verificar o quanto a administração tem consumido do seu tempo. Pois você foi chamado para pastorear vidas. Veja o nobre exemplo que os apóstolos nos deixaram: “Não é razoável que nós deixemos a palavra de Deus e sirvamos à mesa. Escolhei, pois, irmãos (...) sobre este importante negócio. Mas nós perseveraremos na oração e no ministério da palavra.” At 6.2-4.

E o que dizer dos que profissionalizaram o altar? A pregação contemporânea tem sido marcada por alguns tipos de pregadores, e o tipo de pregador reflete-se em sua pregação. Fiquei muito agredido ao folhear uma revista dita cristã. A mesma parecia mais um classificado onde a mercadoria a venda era do tipo “cantor ungido”, “Pregador Internacional”, “preletor internacional”, “ligue agora mesmo e leve poder e unção para sua igreja, pastor X” “Leve cura para sua igreja, Apóstolo Y, milhares de curas.” Quem compra a pregação tem direito de exigir o que quer. Pois, se estabelece a relação fornecedor-cliente, vendedor-consumidor. E como consumidor não duvido que em alguns dias vejamos reclamações de direitos contemplados no Código de Defesa do Consumidor.

A verdadeira pregação não é vendida nem comprada. A verdadeira pregação é livre. Pois, a voz do proclamador tem compromisso apenas com a Verdade, com a Palavra. Ser abençoado por uma congregação que assume o seu papel de “não atar a boca do boi que debulha” é lícito, honesto e bíblico. Mas qualquer relação mercantilista que tira da igreja a voluntariedade de obedecer ao princípio do sustento do obreiro é mercenária.
A pregação contemporânea tem trazido aos púlpitos discursos politizados, psicologizados, positivistas, de auto-ajuda, hipnóticos, marketeiros, e isso quando tem alguma coisa, pois também há os discursos vazios, que como dizia um pastor, é só enchimento de lingüiça.
A pregação pura e genuína da palavra de Deus está substituída pelas necessidades aparentes não tocando na mais profunda necessidade de todo ser humano.

Se prega coroa, mas não cruz. Vitória, mas não luta. Salvação, mas não arrependimento. Vida nova, mas não mudança de vida. Costumes, mas não a sã doutrina. Graça, mas não disciplina. Céu, mas não inferno. Abastança, mas não privação. Aprovação, mas não provação. Promessa de leite e mel, mas não deserto. Reputação, mas não caráter. Aparência, mas não essência. Outros pregam o inverso. Mas a plenitude da Palavra é sacrificada.

Portanto meus irmãos sejamos pregadores do genuíno Evangelho. Não se importando em produzir sensações momentâneas e artificiais nos ouvintes, em apresentar a mais nova descoberta espiritual não revelada desde os apóstolos. Preguemos a Palavra, tão somente a Palavra, e deixemos que o restante é com o próprio Senhor. Ele toca no mais profundo, produzindo mudanças e sensações sinceras e produtivas.

8.7.08

Bingo... Azarando na Igreja!

Você está com sorte grande? Que tal ir a uma igreja próxima de sua casa! Lá certamente você encontrará vários jogos de azar nos quais você será o felizardo e aos demais jogadores restará o azar que o acaso lhes reservou.

Bem, é exatamente isso, jogos de azar são aqueles que o resultado final independe da habilidade do jogador, depende apenas do acaso. Apesar de jogos de azar serem proibidos no território nacional, não é difícil vê-los sendo praticados. Quer na esquina, nas banquinhas do paratodos; quer nas igrejas nas banquinhas dos paracrentes; ou poderíamos dizer, quer no jogo do bicho; quer no jogo das ovelhas.

Minha caminhada cristã é marcada por uma perseguição de jogos de azar. Quando chego numa igreja para pastoreá-la na primeira reunião administrativa sempre me aguarda uma pergunta... adivinha qual é? - Irmão Hilquias, é verdade que o senhor é contra sorteio?! - Não sou contra sorteios. Sou contra jogos de azar.

E parece que não estou sozinho contra os jogos de azar. A Rede Record recebeu um pedido oficial para retirar do ar as inserções do 'Super Leilão'. O procurador da República Márcio Schusterschitz solicitou a 'cessação imediata' do canal de telessorteio, por considerá-lo uma prática de jogo de azar, e como já citei prática proibida em nosso país. O participante para concorrer a prêmios paga cerca R$ 4 mais impostos para cada lance.

Se esse procurador soubesse o que ocorre dentro das igrejas, ele ia passar toda a vida trabalhando só para impedir os jogos que lá ocorrem. Se teria êxito, não sei, pois se ética, boa moral e bons costumes fossem suficientes - as rifas, bingos e jogos pelo número da Loteria Federal - já não existiria nas igrejas. Se a graça, para os que se dizem viver na graça, não basta. Talvez a lei, também não bastaria.

Jogo de azar nas igrejas viola a lei do nosso país; denota a degradação espiritual a que chegamos a ponto de mercantilizar a atitude adoradora que deveria ter o ofertante (quantas vezes não fui perguntado: "E eu vou concorrer ao quê?"); rouba-se a oportunidade que o cristão tem de ofertar; incentiva a aposta; pode levar ao vício ; revela que como comunidade passamos a valorizar mais o ter do que o ser; aponta que a igreja de hoje é pragmática, afirmando com esta prática que "os fins justificam os meios"; exalta a atitude egoísta, contrária ao que Cristo ensinou "é melhor dar do que receber"; o participante de jogos de azar troca o galardão certo de Deus pelo galardão incerto do bingo ou da rifa.

Houve um tempo que tudo era tido como pecado, chegou um tempo em que nada é pecado... É parece que rifaram o pecado e a santidade. Ou será que jogaram os dados para cima para definirem o que é pecado?